quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Por que?


Por que você insiste em nunca dizer o que sente, se impõe forte e prepotente?
Por que você insiste em nunca jogar na sua classe e somente no time adversário?
Por que você insiste em nunca defender seus direitos e somente os alheios?
Por que você cumpri tantos deveres os quais não deve para ninguém?
Por que você não encara essa guerra onde alimenta aqueles os quais nunca te salvarão?
Por que você não se junta a tua classe e se abre em flor num forte abraço?
Por que você não defende teu irmão que agoniza abandonado e deixa teu carrasco sanguinário de lado?
Não se pertence à uma classe fazendo-se de escravo dela ou cortejando-a com flores de jornal de ontem;
Uma classe se faz com homens que se reconhecem no abuso e na opressão;
Mas que não aceitam a escravidão, pois também se reconhecem nos sonhos de liberdade e igualdade onde todos são irmãos.

Vida e arte.

Eu não sabia
Que na arte, assim como na vida
Também existia inveja e picuinhas
Triste essa inútil rivalidade
Pois na arte, assim como na vida
Todos são únicos e insubstituíveis
Cada qual com seus dilemas
Cada qual com seus deleites
Minhas palavras traduzem as estradas
Repletas de asfalto falhos e esburacados
Respeito profundamente a tua estrada
Que também foi feita do mesmo asfalto
Há espaço para todos, na vida e na arte
E incrivelmente estes se multiplicam
Se seguirmos de mãos dadas.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Era sexo.

Era sexo e somente sexo
E por isso mesmo irresistível
Era química, era física
Pele, beijo e faísca
Era literatura, pura poesia
Ritmo, rimas e respiração.
Era sexo e somente sexo
Não me importava seu nome
Seu endereço ou partido político
Não me interessava sua vida
Nem antes, nem depois
Nada além do nosso instante.
Era sexo e somente sexo
Sem mentira, sem maldade
Só verdades, sem pecados
Só dois corpos extasiados
Que insistiam em permanecer
De mãos dadas após sublime ato.

(Mariana L.de Almeida)




sábado, 8 de outubro de 2016

Aniversário de 10 anos.


Aniversário de 10 anos.
Fui deixada num dia 10 de Março
Era meu aniversário
Um dia triste como outro qualquer
Mas com a esperança de festa
Que não se vingou.
O dia passou entre palavras e cortes
Eu só desejava que aquele dia findasse
Sonhava que todos os aniversariantes
Tivessem direito a um pedido
Mas era justo esse qual nunca se realizara.
Fui deixada de lado, ouvia os gritos
Vi as palavras serem dissecadas
Uma a uma numa cadência infeliz
Nenhuma melodia se fez para aliviar
A dor de aniversariar sozinha.
Meus apenas 10 anos de vida.
Ali desconfiei pela primeira vez
Que Deus não gosta de crianças,
Especialmente as aniversariantes.
(Mariana L.de Almeida).


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

29/08/2016.

E a segunda-feira irrompeu assim
Num só golpe nos levou a democracia
A esperança e a vida de tantas Marias...
A segunda-feira nos deixou uma ferida
Que sangrará por muitas e muitas vidas
Fica aqui nossa lágrima de sal
Como brinde à vitória de todo mal.



(Mariana L. de Almeida)

Fênix.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Duvido.

De toda lama que há no mundo
Nenhuma é mais suja que a daqui
De todo o caos que existe no mundo
Nenhum é mais perturbador que o daqui
De toda desgraça espalhada no mundo
Nenhuma reina como aqui
De toda fumaça tóxica desse mundo
Nenhuma é tão nociva como a daqui
De toda bebida podre do mundo
Nenhuma tem mais lodo que a daqui
De toda a miséria que assola o mundo
Nenhuma mata mais que a daqui
De todo ódio que há nos corações do mundo
Nenhum odeia tanto quanto o daqui
De todas as mentiras contadas no mundo
Nenhuma mentiu tão bem quanto a daqui
De toda dor que há em toda humanidade
Duvido alguma doer tanto como a que doeu aqui.
De todo amor que falta no mundo todo
Aqui faltou também, mas não vingou
Só de vingança para minha dor
Eu amei e amei e amei
Como ninguém mais no mundo amou.

(Mariana L. de Almeida)

Quero.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

As noites da cidade.







As noites no centro das cidades
São sempre tristes com suas ruas sujas
Poças d'água encardidas de carbono
Lama, cuspe, mijo e burocracias
Do dia que passou.
Não me iludo, as noites daqui
São tão sujas quantos as de Paris,
Nova Iorque, Marrakech e Milão.
Noites que fedem a perfume barato,
Cigarros, bebidas, catarro e sexo.


As putas do centro da cidade
São exatamente as mesmas
De qualquer lugar do mundo
A maioria delas é filha de alguém
E a maioria delas é mãe de alguém
E a maioria delas é mulher de alguém
E a maioria delas paga contas ao amanhecer
E a maioria delas toma café e porrada
Num bar miserável da cidade.
É preciso sempre encarar a volta
Algum buraco do mundo deve ser sua casa
Algum buraco do mundo guarda suas histórias
Algum buraco do mundo esconde toda a verdade.

Eu nessa hora de insônia
Penso nas putas da General Carneiro
Penso nas putas da Paulista, da Tijuca
De Manhattan e de New Orleans
Gostaria que elas soubessem
Que alguém desse planeta absurdo
Está pensando nelas.... No frio,
No açoite, na coca, no medo, nos caras que chegam.
Jogo minha bituca pela janela
Observo a brasa se despedaçar ao chão
Não sinto culpa, ajudo foder o mundo
Denuncio nossa maldade
Traduzo para você
O que a noite não revelou.








(Mariana de Almeida)
Imagem: Uma rua de Amsterdam.










quarta-feira, 27 de julho de 2016

Já fui boba, mas nunca Santa
Santas não existem!
Já tentei acreditar em semideuses
Deuses só castigam a inteligência da gente
Santos e Santas só se for do pau oco.
Já fui boba e ainda sou
Boba de amor, ainda acredito na flor
Mas a idade e o tempo te trazem
Maturidade e uma dose de serenidade.
Indiferença dói
Arranha a garganta como fel
Mas adoço um café com mel
Viro a página da vida e recomeço meus dias
Nada é tão definitivo
Como o dia de amanhã
Que nasce com sua autorização
Ou não!
Sei degustar o vinho e o pão
O sim e o não
Da vida que nunca passa em vão.



(Mariana L. de Almeida)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

De todas as mulheres do mundo.



De todas as mulheres do mundo
Eu já fui todas
De menina e santa
Casta e puritana
À sacana e insana
Aquela que engana
Em troca de qualquer aliança
Já fui inocente como nova
Já fui coerente como velha
Já fui linda como a lua cheia
Já fui feia como areia seca do sertão
Já disse sim e já disse não
Já entrei em templos e igrejas
Já dancei com as bruxas sob o clarão
Da imensidão da lua sobre o chão
Já entornei o vinho, o lírio, a papoula
Já mastiguei a hóstia, o pão e o sermão
Já vomitei em latrinas de ouro
Já comi em pratos de papelão
Já fui feliz ao pisar na terra com pés descalços
Já amei na beira do mar enquanto a água salgada
Molhava meu vestido de flor
Já chorei sozinha em rodovias desertas
Sem carona, sem carinho, sem deus.
De todas as mulheres do mundo
Carrego cada uma delas no meu olhar.






Aquela menina.




Por um instante
Ainda pude ver
A menina que um dia fui
Sim! Por um instante apenas
Esbarrei com ela no espelho pela manhã
Meu Deus, o que fiz daquela menina
Que um dia em mim habitou?
Por uma fração de segundos
Meus olhos encararam os dela
Vi como ela sorria alegremente e sem motivo algum
Aquele doce menina só entendia de amor
E nada mais.
Me encarou no espelho um pouco horrorizada, eu sei
Não entendeu os caminhos que escolhi
Ou que por eles fui levada sem a autorização dela
Aquela sapequice do olhar me encantou
Amei aquela menina, talvez pela primeira vez
Prometi não machucá-la mais, era preciso nos perdoar
Ela imediatamente me sorriu, leve
Eu retribuí com uma lágrima no olhar
E enfim me sentindo em paz.




segunda-feira, 27 de junho de 2016

Problemas.

E todos os problemas do mundo
Continuam exatamente iguais.
Meus problemas continuam todos
Exatamente como ontem, insolúveis
Como disse meu amado Drummond:
"Esse mundo não se resolve"
E eu não resolvo nunca
A desordem do meu nada.
Guardo as belezas que ganhei
Poetas, escritores, anjos e loucos
Quais a vida me brindou, e
Que decifram minhas palavras
E traduzem minha alma
Vocês fazem toda diferença
Para eu prosseguir aqui
Agradeço por vocês em minha vida
Amo e sou ressuscitada por este amor
Como quando estou prestes a cair
Como quando estou por um fio
À lançar voo abismo abaixo.



(Mariana Lima de Almeida)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Profana.



Tanto busquei aos deuses
Tantas súplicas e orações
Até poemas lhes ofereci...
E nada!
Tentei lhes agradar de todas as formas
Fiz jejum, promessas, decorei salmos
Ofertei-lhes meu pão, bebi todo o vinho
Mas o que eu pedia os deuses nunca me deram
Ainda não sei o que fiz de errado
Ao ser explulsa assim do paraíso
Ainda menina meus pecados traí
Ao oferecer aos deuses minha inocência
Em troca de algum alento, desvelo.
Os deuses não sabem
Ao me negarem os céus
Abriram abrigo sem véus no meu coração.





(Mariana L. de Almeida)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Poesia.



Há os que buscam a religião
Há os que buscam os amigos
Há os que buscam os amantes
Há os que buscam os bares,
Há os que buscam os milagres
Mas eu não busco nada.
Eu não colho mais absolvição
Eu não colho mais ingratidão
Eu não colho mais solidão
Eu não colho mais olhares
Eu não colho mais falsos milagres
Eu colho a poesia, ignorada,
Deixada no canto do chão
Daqueles que passam e vão
Em vão?


(Mariana L. de Almeida)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sonho.



As vezes eu sonho com você e não é quando eu quero e sim quando sem mais ou menos acontece. As vezes eu precisava tanto falar com você que ao deitar lhe dedico mil preces pedindo que venha a noite me visitar. Eu preciso confessar, pode ser terrível eu sei, mas os mortos as vezes aparecem e você as vezes aparece para mim. Pois bem, essa noite você veio no meio de uma confusão, as pessoas transitavam sem parar ao nosso redor, falavam alto, gesticulavam, cada qual com sua...s histórias e anseios. Você caminhava depressa e eu tentava te alcançar, meu coração doía, você olhava para trás e me sorria, aí como doía cada sorriso seu. Aquelas pessoas todas do nosso pequeno mundo atrapalhavam nossa discussão, você apertava o passo e o tempo tão incerto, outono mais parecido com inverno, um vento gelado que machucava a pele, meus lábios estavam rachados e a língua ao tocar o canto da boca sentia o gosto de sangue.
No meio da nossa conversa, entre pessoas passando, apareceu um semáforo com a luz vermelha piscando, você parou e segurou forte minha mão, a sua estava quentinha e me trouxe alívio imediato, ficaria o resto da vida alí aguardo o sinal verde do semáforo abrir.
Nos olhamos com ternura e sorrimos e depois gargalhamos e depois ainda de tanto rir nos contemplamos num profundo silêncio.
O sinal abriu e voltamos a caminhar depressa, as pessoas também, eu queria te contar com calma todas as novidades do novo trabalho, do livro, da viagem e de como te rever estava sendo maravilhoso. Infelizmente a pressa, a rua, o barulho dos carros e motos, a velocidade, o vento que aumentava, uma neblina terrível que se formou na rua e minha visão foi perdendo o foco e a nitidez, senti um imenso abismo se abrir em meu peito, pois sabia que não te veria mais. Senti dedo por dedo escapar de sua mão, um por um foi escorregando enquanto você aumentava o passo e eu num desespero sufocante não consegui gritar seu nome pedindo um último olhar. Você se foi sem pestanejar, sumiu na neblina e eu acordei encharcada de suor e lágrimas de alívio e saudade. Eram quatro horas da manhã, o vento lá fora uivava, fechei bem a janela e voltei para a cama pensando que na verdade os mortos continuam bem vivos em cada um de nós.

(Mariana L. de Almeida)

terça-feira, 24 de maio de 2016

Encontros e Desencontros.

Saí das batidas rítmicas do teu coração
E entrei para os números estáticos
Dos encontros vividos num dia de maio.


Saí dos teus livros de poemas
E hoje estou em alguma página
De qualquer antiga agenda
Lembrando tudo que não não vivemos.



(Mariana L. de Almeida)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Por tanto tempo.

Por tanto tempo estive afastada de mim, tinha medo de me aproximar e conhecer a verdadeira face de quem nunca enfrentei, de quem nunca aceitou resignadamente tudo aquilo que a vida impôs, de quem sempre foi contra os fatos, de quem não pôde gritar.
Por tanto tempo senti pena e até certo asco de mim por amar o impossível, o inacabado, o feio, o machucado, por amar o que não se pode amar. Afinal, Narciso acha belo o que é espelho.
Por tanto tempo não pude viver, pois só viveria aquilo que não pudesse ver e meus olhos esfomeados e raivosos viam tudo, viam demais, viam o que não se pode ver.
Por tanto tempo pratiquei um lento suicídio e nas diversas tentativas esperava no fundo ressuscitar-me. Era como que acreditar e testar milagres e que na hora H o milagre irromperia e me resgataria vitoriosa. Eram devaneios solitários, noites tão longas para dias tão curtos, o meu tempo era outro.
Assim o tempo passou entre palavras riscadas, palavras caladas, lamúrias literárias em vãos, nenhuma parede me ouvia nem se importava com minhas demências. O triste de ser demente é ter que fingir, fingimos o tempo todo, sem pausa e sem nunca, nenhum descanso.
Pensei na morte com profunda ternura, enfim, isso tudo haveria de findar-se, essa estupidez toda haveria de acabar e virar poeira no espaço, mas a morte não veio como mais um fracasso de meu caminho.
De poeira em poeira o caminho segue sorrateiro, de poeira em poeira teceu-se os sentimentos e pensamentos, de poeira e cruz,  só a poesia restou.

(Mariana L. de Almeida)



segunda-feira, 9 de maio de 2016

Me pergntaram o que é poesia


Confesso que senti
Um aperto no peito


E não respondi.


Queria entender o motivo da dor


Não entendi


Mas continua doendo.




(Mariana L. de Almeida)